Resistência e Descentralização

A sociedade em rede convive como o assincronismo, o tempo e o espaço são desmontados pelas complexidades da própria rede. Uma ruptura da metafísica padrão como propõe David Weinberger em 'The Web Methaphysics': 'Nossa metafísica cultural está baseada na divisão do mundo em discretos objetos. Esse processo de divisão raramente é consciente. Acontece através da linguagem, a qual é elaborada pelos poetas de vários tipos, incluindo cientistas, políticos, marketeiros e adolescentes revoltados (...) O modelo de containeres, como muitos de nós suspeitamos, é inadequado. Ele simplifica demais as experiências' [Weinberger].

Sistemas complexos provocam a distensão dos momentos. É deveras reducionista fazer um recorte do ciberespaço como um veículo de mídia de massa. Ou de entretenimento. Não é essa a idéia. A crescente virtualização da sociedade pós moderna tem trazido algumas novas possibilidades para a humanidade. Conceitos, como cidadania, se tornam ineficazes quando analisados à luz do caos da sociedade em rede. Linkania é termo do futuro. Cidadania, na essência, está vinculada (linkado?) a direitos e deveres. E ao invés de falarmos e exercemos plenamente isso, discutir, ensinar, propagar, falamos na vaga terminologia da cidadania. [Estraviz]. Linkania é a cidadania sem cidades. Ou seja, a humanidade tende a coexistir numa sociedade em rede. Linkania tem a ver com as pessoas. Digo pessoas da forma mais abrangente. Pois, estamos experimentando ,nesse ambiente digital, percepções que não faziam parte da nossa metafísica padrão. A cultura cibernética tende a privilegiar as relações entre as pessoas, promove o link, a inter-relação.

Penso no ciberespaço como um novo lugar. Muito embora, a fronteira eletrônica extrapole a noção de lugar geográfico. Lugar ou não-lugar não faz diferença. E, nesse contexto, o lugar passa a ser definido como uma interface cultural que tem no link a expressão do inter-relacionamento de pessoas, grupos, do tempo, do espaço [Mannovich, Weinberger]. Lugar, assim, é um novo ambiente de relações, de links entre coisas.

Mas por que discutir o lugar? Para analisar a resistência digital; ou a organização cibernética de luta pela liberdade; ou a infoguerra, o ciberterrorismo, as bombas de Londres, os cliques fumegantes nas periferias informacionais devemos, primeiramente, compreender como esse caos interfere na concepção da sociedade. Como se formam os links e como esses links se transformam em redes [Antoun, Barabási].

A internet é uma metáfora daquilo que entendemos como uma sociedade em rede hiperconectada. Ela não existe per si. Existem muitas internets. Por exemplo, os bancos a utilizam para interação com clientes; as rádios reverberam o jabá online; a uol, aol, terra disponibilizam o último suspiro da mídia de massa; os blogs nos mostram a diversidade das vozes, etc. Grande parte desses sistemas atua na manutenção das forças e perpetuação do poder do capital globalizado. Ou seja, aquilo que chamamos 'mainstream', operado dentro da lógica do capitalismo imperial. No entanto, há uma pequena porção da internet que se descola dessa lógica, constituindo um ambiente de compartilhamento de informações e catalisação do conhecimento. Nesse sentido, percebemos que uma poderosa conversação global começou. Através da Internet, pessoas estão descobrindo e inventando novas maneiras de compartilhar rapidamente conhecimento relevante. Como um resultado direto, mercados estão ficando mais espertos
Manifesto Cluetrain - http://www.cluetrain.com [Locke, Levine, Weinberger, Searls].

Internet é redes de links. Computadores são ferramentas. Interessante observar que o poder do império necessita dessa hiperconexão. É o império que faz a conexão de placas e cabos. É o império que mantém a infra-estrutura física. Pois, pela necessidade de enfrentar a escassez do capitalismo, o sistema procura aumentar a velocidade e a eficiência das suas relações, ou melhor, os bancos precisam cada vez mais da rede para sobreviver, assim como, os conglomerados de comunicação. Esse sistema é paradoxal e provoca a sua própria contradição. Cria espaço para catalisar a liberdade.

De um lado, o império. Armamentos atualizados pelos milionários investimentos e poder da indústria bélica americana. Uma produção em massa de destruição alavancada pelos detentores do poder imperial. Afinal, investimento militar é objeto de geração de rendas e não importa aos crápulas que o resultado final é conhecido. Morte, genocídio e desespero. Mas para que pensar nisso? O poder da grana é no curto prazo. E como disse Keynes: 'No longo prazo estaremos todos mortos'. Assim, a ética protestante põe fim à culpa. O trabalho e o dinheiro enobrecem o homem. E a morte será democratizada no futuro.

Mas. essa guerra, ou essas guerras - são mais de 2000 conflitos acontecem nesse momento em todo o mundo - não são românticas. Negri e Hardt constatam que: 'Uma lição difícil que os líderes dos Estados Unidos e das nações aliadas parecem ter aprendido relutantemente após o '11 de setembro', por exemplo, é que o inimigo que eles desafiam não é uma única nação-estado soberana, pelo contrário, é uma rede. O inimigo, em outras palavras, tem uma nova forma. De fato, isso se tornou uma condição geral na era dos conflitos assimétricos que o inimigo e ameaças ao poder imperial tendem a aparecer como redes distribuídas e não como uma estrutura centralizada e soberana' [Hardt & Negri].

Por outro lado, temos uma multidão que se alimenta das contradições do império e, que encontra na rede um ambiente propício para expressar a sua potência. A multidão hiperconectada só se faz possível quando entendemos a ruptura dos containeres que estabelecem o ser como um sujeito múltiplo e engajado ou, como seres multifacetados capazes de viver várias vidas numa só. Experimentamos as nossas singularidades (e nossas esquizofrenias). Temos uma multidão dentro de cada pessoa. A linkania faz as ligações para a auto organização. Linkania é imanente. Compartilhar interesses faz com que as pessoas se aproximem. Se juntem. Essa é a lógica da linkania.

A experiência da linkania tem ação descentralizadora. Possibilita o link, ou o relacionamento, entre as multidões influenciando a descentralização e a fragmentação do poder. Essa multidão dialoga com a máquina do poder soberano. A multidão emerge das relações entre pessoas. E, numa sociedade em rede, as pessoas se interconectam e conversam entre si. As pessoas se reconhecem nesse ambiente rompendo, assim, as hierarquias de valores que separam aqueles que alimentam o poder imperial daqueles outros que agem em multidão.

Os partidos políticos, o terrorismo e alguns grupos táticos se valem das redes para a atuarem nos intermeios da sociedade. No entanto, essas organizações tendem ao enfrentamento direto do poder imperial. Esse tipo de ação prioriza a guerra e, dessa maneira, incita a sociedade de controle. Pois, o estado de guerra fomenta o sistema de exceção. Sem guerra não haveria necessidade de existir investimentos em armas, em tecnologias de vigilância e controle.

O efeito Grande Irmão só pode ser explicado pela necessidade do poder se manter, assim, a sociedade do controle apenas serve o poder. Entretanto, o poder não tem cara. Não é governo. Poder é poder. Pelo simples fato de existir como um espectro. Um fantasma na máquina humana. O poder extrapola as fronteiras do ser.

A resistência digital, por outro lado, não necessariamente se opõe ao inimigo comum. Ou seja, o inimigo que se forma pela contradição do sistema capitalista. É possível recriar a existência através do diálogo, da apropriação e ocupação de espaços vazios de poder. O espaço informacional pela sua própria característica pós geográfica permite a formação de comunidades virtuais interconectadas. Estas comunidades são ocupadas pelas pessoas que transitam aleatoriamente no ciberespaço.

Mas, a liberdade também é uma forma de nomadismo. A liberdade também é nômade. Aliás, Deleuze define o nomadismo como um modelo de resistência ao poder. A máquina de guerra é uma forma de dominação, mas também é a forma que as multidões se auto organizam para a ação. A revolução digital é possível quando a multidão enfrenta os atores imperiais numa intervenção direta na microfísica do poder.

Essa intervenção se dá pelo diálogo que se vale da troca e a reapropriação de idéias como agente de transformação. Como uma máquina de guerra conquistam seu território, apropriando- se da tecnologia e ocupando os espaços informacionais. As multidões 'organizam o caos' das redes hiperconectadas. Essa ação se torna maquínica quando engajadas no processo de agenciamento coletivo. No plano da imanência essa multidão é a única alternativa contra o poder instalado.

Assim, entendemos o poder nômade como modelo agregador do império. Como, então, entender esse mesmo nomadismo como forma de resistência e revolução? Esse contra-poder exige o engajamento maquínico. Aliás, a própria rede só se faz rede quando as pessoas que perambulam no entorno se engajam num projeto comum. Entendemos projeto como expressão do trabalho imaterial. Dessa forma, as pessoas juntas tornam-se multidões. Essa multidão hiperconectada emerge da conexão e da colaboração entre pessoas [Dimantas].

E, nesse ponto, a revolução do software livre faz a diferença. Pressupõe a possibilidade de acesso ao código fonte para modificar, diminuir, acrescentar ou fazer o que bem entender. É a ponta do iceberg de uma sociedade colaborativa. O software livre está cada vez mais penetrando nas decisões da sociedade da informação. O Linux é a resposta da multidão. Foi criado pela colaboração entre pessoas comuns. Envolveu centenas de programadores espalhados pelo mundo. O Linux é subversivo, pois transforma a estrutura imposta pela revolução industrial. É o primeiro produto idealizado e concebido pela multidão hiperconectada. Foi construído num outro paradigma. Colaboração vem a substituir o capital [Raymond].

Colaboração é a novidade da sociedade da informação. Com as tecnologias da comunicação e da interação as redes passam a facilitar a convivência em tempo real à distância. Provocam e potencializam a conversação. Reconduzem a comunicação para uma lógica de sistemas organizacionais capazes de reunir indivíduos e instituições de forma descentralizada e participativa.

O capitalismo, apesar de dominante, não consegue mais sustentar a lógica da acumulação e do trabalho. Seus principais alicerces, a economia, o paradigma da ética burocrática e a cultura de massas, estão em crise. A crise é um índice de que se faz necessária urgentemente uma nova ordem, uma reestruturação. Marx escreveu sua crítica em 'O Capital', num momento que a sociedade industrial estava aflorando, mas não se apresentava, ainda, como o paradigma dominante. O século XXI exige, portanto, modificações estruturais no poder para atender a nascente sociedade informacional. É nesse cenário que as redes sociais adquirem importância.

A tecnologia catalisa a inteligência das pessoas. A revolução das tecnologias da informação atua remodelando as bases materiais da sociedade e induzindo a emergência de agenciamentos colaborativos como base de sustentação da sociedade. Não podemos atribuir essas mudanças apenas à tecnologia. A internet torna possível o florescimento de novos movimentos sociais e culturais em rede. Possibilita a organização da sociedade civil em novas formas de gestão e o retorno às redes humanas depois de anos de domínio das redes de máquinas e da burocracia. No limite da ruptura dos paradigmas, a colaboração aparece como um potencializador das energias produtivas. A sociedade está se tornando mais aberta e de uma forma ampla, mais colaborativa.

O software livre é o caso mais conhecido desta resistência digital. E que teve maior impacto. Uma nova dinâmica que demonstra a produção de conhecimento livre como alternativa economicamente viável e sustentável. O código aberto está trazendo para a inovação o que a linha de montagem trouxe para a produção em massa. Estamos chegando numa era onde a colaboração substituirá a corporação. Uma opção pela descentralização do poder catalisado pelas conversações de uma sociedade em rede.

As pessoas não querem mais ser telespectadores. Elas têm a possibilidade de interagirem com as comunidades na internet e, assim, protagonizarem as próprias existências. Buscando na comunidade digital os interesses comuns. Uma alternativa para o crescimento colaborativo.

E nesse sentido, estamos num processo de progressão jamais visto. Pois qualquer pessoa tem a possibilidade de publicar na rede, seja em forma de email, artigos, blogs, músicas ou imagem. A internet é um meio multimídia que dá as pessoas inúmeras formas de expressão. A cultura cibernética não é nada mais do que uma compilação desta diversidade. Está em curso um processo silencioso, uma revolução que não será televisionada que provocará mudanças profundas na sociedade.

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