Só não existe o que não pode ser imaginado
Faz algum tempo que temos sugerido que o capitalismo está sofrendo um processo de ruptura através das conversaçôes da rede. Essa afirmação parece ingênua. E, talvez, um recorte leviano que nos aponta para uma verdade anunciada. Realmente, quando analisamos de fora, desvinculados das idéias recorrentes, parece uma grande utopia. Tento provar o contrário. Rede pressupõe engajamento e imanência.
Portanto, para entender essa ruptura temos que montar um cenário para a contextualização do que significa conversação. Não é tão difícil definir esse movimento. Zonas piratas emergem de uma rede catalisada pela conectividade cibernética. Hakim Bey denomina esse fenômeno como TAZ (Temporary Autonomous Zone).
Esse barulho das TAZes identificam e apontam para as mutações provocadas por uma sociedade que começa, sensivelmente, a acrescentar um viés colaborativo aos meios de produção.
Negri, com um discurso calcado numa filosofia com heranças Espinozanas, Deleuzianas, etc chama de multidão esse monstro ontológico que aflora de baixo para cima para o enfrentamento do poder imperial.
A esquizofrenia atinge,assim, seu lugar na estrutura política. Não somos individuos. O corpo não dividido foi escurraçado por Freud. A multiplicidades de singularidades formam a multidão hiperconectada.
O 'ser' deixa de o centro da existência. O cartesianismo não explica mais o nosso mundo. Está, lentamente, sendo deixado no seu lugar. O pensamento humano está em transformação em tempo real. Não mais pensamos para poder existir. Aliás, como diz Murilo Mendes: Só não existe o que não pode ser imaginado.
Pensamos rizomas. Não só nas raizes que se bifurcam, crescem aleatoriamente sem comando e controle. O rizoma nos mostra o comportamento das redes, onde a trama de nós não mais identifica o ser, o corpo, o autor. Somos um produto rizomático. Multidões dentro de todos nós. Dentro e fora, fora e dentro. O corpo não tem limite. Distende-se para o infinito e para o além.
É complicado? Bem, esqueça aquilo que te faz se enxergar como ser humano. Estamos nos referindo a uma outra tradição filosófica. Isso implica na maneira de sentirmos a vida. Para que tanto racionalismo? Por que pensar no homem como centro do mundo? E para que tanto esforço? O corpo se distende para um todo. As relações corpo- máquina (e todas as relações que derivam dessas aproxiamções) nos fazem entender que não mais importa diferenciar as partes. O ser natural, aquele desprovido dos males tecnológicos, jamais existiu. Ou melhor, não existe desde que as funções do homem se distendem na relação com o ambiente. E isso data da idade da pedra lascada. Nossa cultura é hibrida (e miscigenada?).
Então, temos que mirar para as relações. Eu existo apenas quando estamos em relação com outros corpos (seja o que você quiser colocar como outros corpos). Bem como, esse corpo também se relaciona com um multidão que 'habita' esse corpomídia.
Merleau-Ponty diz: "a carne não é matéria, não é mente, nem substância. Para que designemos isso precisamos dos elementos velhos e novos, no mesmo senso que esse termo é usado para falarmos da água, ar, terra e fogo. Isto é, o senso das coisas gerais - o princípio da corporificação (embodied principle) que traz um estilo de ser aonde existe apenas fragmentos do ser. A carne é esse senso do elemento do ser*". Como a carne, a multidão é a força do elemento do ser. É orientada para a imensidão da vida. Um monstro revolucionário da quase pós modernidade que aparece para transformar a carne em novas formas de vida.


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