homem_máquina_protocolo
Estive estudando um pouco de Flusser. Relembrei do McLuhan e das máquinas como extensão do homem. Flusser tem um insight legal. as fábricas são lugares onde sempre são produzidas novas formas de homens: primeiro, o homem-mão, depois o homem-ferramenta, em seguida, o homem-máquina e, finalmente, o homem-aparelhos-eletrônicos. Repetindo: essa é a história da humanidade. A máquina distende a mão do homem ao ponto do homem se tornar a máquina, ou a máquina se torna o homem. Oras, tanto faz. Somos homem_computadores, homem_celulares, homem_agendas_eletrônicas... somos homens.
Na verdade, nossa experiência no MetaReciclagem faz um link importante com esse pensamento. Pois, o limite da apropriação tecnológica, numa abordagem mais conceitual, é a constatação de que o desafio de lidar com a máquina (seja máquina qualquer device) é ser a máquina. Brincamos com os games, desafiamos os limites como se fôssemos os heróis. Programadores tem como objetivo apenas criar um percurso rítmico para as mentes em ação.
Logo, o desafio está em romper a caixa preta. Quebrar os códigos que nos desafiam. Decifrar os protocolos que controlam o sistema. É como se estivéssemos em Matrix e, como um bom hacker, libertado pela pílula vermelha. Somos livres para descobrir a arquitetura do sistema, estamos livres para dominar os sistemas... all your base are belong to us.
Parece que este é um insight utópico. Nossa! esse cara não percebeu que a sociedade do controle tomou conta das nossas ações? Cadê a privacidade? Nossos dados estão disponíveis na rede. E, a cada momento, a sociedade se torna refém de um sistema homem_máquina_protocolo.
A promessa da Internet é o retorno da voz. Esse retorno se dá pela apropriação da tecnologia e pelas inúmeras possibilidades de usar o sistema homem_máquina_protocolo em benefício do sujeito e da comunidade. O caminho do controle é o mesmo do que aquele proposto pela liberdade. Temos, então, que mudar a abordagem, ou olhar de viés. Guattari aponta para a relação paradoxal da sociedade de controle e da liberdade. Ambas caminham no mesmo sentido, uma é contradição da outra. Uma inércia entrópica: La société de contrôle est dominée par une sorte de pulsion déterministe collective qui, paradoxalement, n'en est pas moins minée de l'intérieur par une nécessité impérieuse de préserver un minimum de degrés de liberté.
Este é o paradoxo. Explorar nas contradições do sistema. Pois, pela necessidade de enfrentar a escassez do capitalismo, o sistema procura aumentar a velocidade e a eficiência das suas relações, ou melhor, os bancos precisam cada vez mais da rede para sobreviver, assim como, os conglomerados de comunicação. Esse sistema é paradoxal e provoca a sua própria contradição. Cria espaço para catalisar a liberdade.
Por outro lado, temos uma multidão que se alimenta destas contradições e, que encontra na rede um ambiente propício para expressar a sua potência. A multidão hiperconectada só se faz possível quando entendemos a ruptura dos containeres que estabelecem o ser como um sujeito múltiplo e engajado. A apropriação tecnológica possibilita o compartilhamento de interesse comuns. As pessoas se aproximam. Criam e recriam comununidades. As pessoas se juntam, estão linkadas pela ação comum. Essa é a lógica da linkania.
A experiência da linkania tem ação descentralizadora. Possibilita o link, ou o relacionamento, entre as multidões influenciando a descentralização e a fragmentação do poder. Essa multidão é dialógica. Conversa com o sistema homem_máquina_protocolo, porque é também parte desse sistema. A multidão emerge das relações entre pessoas. E, numa sociedade em rede, as pessoas se interconectam e conversam entre si. As pessoas se reconhecem nesse ambiente rompendo, assim, as hierarquias de valores que impactam na dicotomia do controle e da liberdade.


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