Efeito Mallarmé - a tela branca
Por que tudo é tão difícil? Vida besta! Não me deixa feliz. Sair pelas ruas, sentar na sarjeta. E apenas contemplar o pôr do sol. Na cidade, não vejo o horizonte. A luz do sol vem refletida nas vidraças espelhadas dos edificios. O som da cidade me cansa. Britadeiras, carros, o pastor declamando o evangelho. A alma que desliza sobre o éter dum instante é feliz e expande-se na harmonia.
O inimigo mora ao lado. Tento fugir dos tentáculos viscosos. Mas ele não sai do meu pé. Quer atrapalhar a minha vida transmutando a realidade num pervertido jogo. Não quero continuar brincando de pega-pega. Vou arrumar as malas e fugir desse inferno urbano. Deixar a cidade violentada de ódio. Seria bom... Seria muito bom. Mas não passa de ficção.
Estou com a cabeça vazia. A síndrome da página em branco. Efeito Mallarmé. O desespero de transformar o nada em alguma coisa. Jogar palavras desconexas para formar um sentido, que muitas vezes são incompreensíveis. Pensar, pensar e pensar.
Relax. Preciso fazer uma viagem alucinada para outra dimensão. Sair do planeta é uma solução Embora, seja mais coerente revisitar a vida. Reencontrar os nossos medos nas imagens avassaladoras. Serpentes, répteis e ratos. Passeando pelas alamedas tortuosas da mente vazia. Tédio e aventura se fundem num movimento pela vida sadia. Medo e delírio.
A promessa de um aconchego. Na sutileza de um carinho. De um sorriso infantil. Crianças aguardando o momento de brincar. Felicidade. No meio do desespero cotidiano, o amor é a solução ou, pelo menos, o veículo de transformação da sociedade. É bom amar. Tão bom quanto ser amado.
O segredo está na transformação. No desapego. No saber o que fazer com a manhã seguinte. Levar a vida tão a sério não é nada saudável. Aprendemos fazendo arte. O problema da humanidade, diz Bertrand Russel, é que os ignorantes estão cheios de certezas e os inteligentes estão cheios de dúvidas. Crie, mude, transforme e descontextualize, numa dinâmica atemporal de desrtruição e construção de virtualidades.
Será que algum dia vou ter tranquilidade absoluta? Sabe, acordar feliz, passar o dia feliz e dormir feliz. Sem espasmos de tristeza. Sem um calor nauseabundo. Ou, uma chuva gelada escorrendo na face sonolenta.
Como podemos estar tranquilos se andamos na rua e defrontamos com uma miséria amorfa. Pessoas, gente como a gente, jogadas num descalabro. Crianças com narizes sujos. Loiras, brancas, negras, mulatas. Sem pai, nem mãe. Apenas crianças da vida.
Todo dia temos que nos lembrar. E não rezar pela nossa própria felicidade. Não apenas perceber o quanto você está bem. Pois. isso é mentira. Isso é perverso. E não só lembrar. Temos que fazer algo a mais para o bem do coletivo. Ou não?


Efeito Mallarmé - a tela
Também já fui vitima do efeito "tela em branco". Na época, era bem ruim porque, apesar de ter várias idéias povoando a minha mente, que em nada tinham a ver com o que eu estava fazendo/criando naquele momento, apesar da necessidade de colocar pensamentos outros no papel, eu tinha uma pressão danada para continuar no texto da vez e terminar o trabalho logo.
Em alguns momentos, conseguia vencer a necessidade de alçar vôo, mesmo que o caminho que tomava não estivesse de todo trilhado - e quem não teve vontade já, ao olhar o céu, de voar e se afastar do chão?
Outras vezes, não consegui resistir. Deixava de lado o trabalho que precisava ser concluído e enveredava por outros "eus", outros caminhos, outros horizontes. O resultado das minhas pequenas fugas estão por aí, pela net, em forma de crônica. Apesar de não serem o texto esperado, ao menos eram textos e eu estava produzindo.
Sempre fui meio apegada a essa coisa da produção: se não conseguia escrever a obra da vez, ao menos precisava escrever alguma coisa.
Foi daí que construí a idéia de que escrever não é dom. Escrever é, na verdade, prática e, sobretudo, persistência, resiliência com sigo mesmo e com o mundo.
Vou resgatar as minhas crônicas. estavam na minha antiga página, mas, agora, devem ter sido removidas para a instalação do drupal. Peninha... :)
13 - Além do Desespero
13 - Além do Desespero
Por que escrever? Por que levantar da cama, comer, lutar para permanecer vivos, nos levantar após as quedas? Por que negar nossa total insignificância? Por que viver se sabemos que, mais cedo ou mais tarde, independente daquilo que fizermos, nada mais que a morte nos espera?
Alguns dizem que é por instinto, outros que é pela evolução, por amor, por necessidade... Acreditem se quiser. Tudo isso soa muito interessante, mas quem realmente engole essas besteiras? No fundo temos a vontade de dizer: olha, isso é muito bonitinho, essas idéias são bem simpáticas, porém não convencem ninguém. Instinto, evolução, amor, necessidade, blábláblá. E daí? Doa a quem doer, o ser humano não passa de uma farsa transitória e a verdade é que não há razão alguma para esta porcaria toda. Acordar, olhar para o espelho e ver um rosto remelento, sempre mais velho, agüentar o nhenhenhém dos filhos, pais, maridos, esposas, gatos, cachorros, patrões, namorados, da própria cabeça que não pára, por mais que tentemos amordaçá-la com trabalho, televisão, álcool, sexo, festas, esporte, masturbação ou meditação. Ter que comer, beber, ter dor de dente, cabeça, juntas, dor de tudo, e de barriga, ir ao banheiro, trabalhar e nunca ter dinheiro, ou ter demais e ter medo de ser roubado, seqüestrado, estuprado, enganado, ser agredido e ter que esquecer, perdoar, esperar pela justiça, se preocupar... A lista de idiotices não tem fim.
Em alguns momentos de nossas vidas esta realidade se abaterá sobre nós. Às vezes ela virá como uma avalanche, nos apavorando e soterrando, outras vezes ela será como uma onda inevitável de tristeza. Psicólogos, psiquiatras e médicos chamam esses momentos de nomes pomposos, falam em depressão, bipolaridade, esquizofrenia, crise existencial, síndrome disso e daquilo. Nós choramos, e imploramos por remédios para esquecer ou enterrar nosso desespero fundo, bem fundo, para que ele, por favor, não incomode ninguém, especialmente a nós mesmos. Astrólogos comentam retornos de planetas, infernos astrais e loucuras cadentes. Religiosos falam de tentação, provação ou carma. Qualquer que seja o nome que dão para este fenômeno, trata-se de uma fase de terror e descobertas.
Em 1999 resolvi parar tudo aquilo que eu estava fazendo, dar o basta e sair do palco mundano por um tempo. Eu já levava uma vida “alternativa”, pois minhas crises começaram cedo, na infância e, de tempos em tempos, sempre voltavam, com cada vez maior força, tornando um funcionamento socialmente “normal” absolutamente impossível para mim. Decidi dedicar um tempo de minha vida, mais precisamente uma viagem, apenas a essas questões fundamentais. Segui minhas premonições e intuições, coloquei meu lado racional em segundo plano e fui andar no norte da Espanha. Acabei caminhando por cinqüenta dias.
O Caminho de Santiago é uma rota milenar, geralmente percorrida por aqueles que querem se encontrar com algum deus, com seus demônios, com o sentido ou a falta de sentido de suas vidas. Quando eu coloquei uma mochila nas costas e parti sozinha nesta aventura, eu não fazia a mínima idéia daquilo que me esperava. Apenas sabia que eu tinha um encontro marcado comigo mesma. Cada passo e cada momento a partir do começo daquela viagem seriam cadenciados por esta intenção de me encontrar.
Atos simbólicos deslancham uma energia inimaginável e apenas é possível compreender o sentido verdadeiro da palavra magia quando fazemos a experiência dela. Inúmeras foram minhas descobertas nesta viagem e até hoje elas permeiam meus pensamentos quase que diariamente.
Um dos momentos de mais força ocorreu mais ou menos na metade do percurso, durante um desvio que eu me vi impelida a fazer e que me levou a um lugar belíssimo chamado “Vale do Silêncio”. Passei um dia e uma noite na natureza, a dois quilômetros do primeiro vilarejo. Ao contrário daquilo que se possa pensar, a beleza do local não evitou que eu descesse ao meu próprio inferno. De repente tristeza, medo e uma raiva profunda de mim mesma e de todo o absurdo da existência começaram a jorrar como uma cachoeira de lixo. Durante um longo tempo fiquei pasma ao observar a minha própria histeria. Quando o ataque passou, pude enfim escutar o que estava ao meu redor. O espaço de algumas horas havia mudado a qualidade de minha própria experiência. Descobri que o mesmo silêncio podia ser ameaçador ou inspirador, dependendo de como eu olhava para ele. Naquele momento, percebi também que somos instrumentos da vida e que naquela viagem eu estava sendo “afinada” para que um dia a vida vibrasse em mim como uma música.
O encontro consigo mesmo é fundamental. Fala-se de terapia, auto-conhecimento, busca espiritual, mas essencialmente todos esses caminhos tratam disso. Precisamos fazer o movimento de nos abrir e descobrir a doença do mundo visceralmente, dentro de nós. Quem nunca se confrontar com a dor essencial, aquela que nos é inata a todos, nunca poderá vivenciar um sentido real para o próprio ser. Para ir até o cerne de nós mesmos temos que ousar ser diferentes daquilo que fomos até agora, ter a coragem de passar a faca em nossa realidade estabelecida e olhar além. É necessário estar pronto para vomitar verdades mortas, sujar os pés com a própria lama, rolar nela se preciso, descavar o desespero para poder fazer brotar a fonte cristalina, para sentir a vida jorrando dentro e em volta de nós.
Não existe razão para viver. A palavra razão significa causa e nela está subentendido um ciclo infindo de outras causas e conseqüências, seguidas de sempre novas causas e novas conseqüências. Em última instância ela pressupõe a existência do tempo. Mas a própria definição do tempo nasce da observação e classificação puramente humanas. Entretanto, se realmente existe algum sentido para a vida, ele com certeza excede a definição temporal e está além de nossa limitada capacidade de avaliação.
Para conseguirmos suportar e quem sabe transformar a óbvia absurdidade de tudo aquilo que nos envolve, merecemos e temos o direito de descobrir algo que transcenda qualquer possível explicação. Precisamos fazer a experiência daquilo que alguns chamam de Deus, outros de luz, paraíso, amor ou beleza essencial. Algumas filosofias e religiões clamam ter a única chave para essa vivência que nos é inerente, mas os caminhos para ela são tantos quanto são numerosas as formas de vida no Universo. O importante é saber que o sentido da nossa vida como indivíduos e como espécie apenas nos pode ser revelado visceralmente. É preciso arriscar e viajar para dentro de nosso umbigo até que sejamos propulsados além de nós e descubramos que levamos tudo aquilo que existe escrito em nossas células. Somos todos feitos da mesma coisa, conectados pela mesma coisa e entrar em contato com ela nos faz despertar para a verdadeira vida, aquela que existe para lá de nossas estreitas realidades e passageiras identidades, aquela que antecede e sobrevive os tempos. Aquela que não morre.
Por isso, viajemos. Acima de tudo, não desperdicemos a oportunidade e a aventura que nos está sendo oferecida. Podemos perder nossos dias fazendo milhares de coisas sem cabimento e nos afogando em crises criadas, com toda a razão, por nossas almas. No fundo estamos todos famintos por um real sentido e não dá mais para aceitar esta merreca a qual pedem para que nos resignemos, esta lorota de estudar, trabalhar, ganhar dinheiro, casar, ter sexo, ter filhos, ser bem-sucedido, comprar, comprar e comprar, e assim por diante. Mas se quisermos mesmo dar continuação a esta pantomima, pelo menos é bom nos prepararmos para a surra que o vazio existencial nos dará de vez em quando. Tomaremos remédios, inventaremos desculpas, procuraremos distrações, mas no silêncio das horas solitárias ele gritará em nossos corações, ressoará rancorosamente no oco de nossas entranhas e pesará sobre nós como uma certeza irrefutável.
Em poucos casos, após já termos esgotado todos os anestésicos e todo arsenal de auto-enganos, talvez aceitemos o fato de que faz tempo que estávamos no fundo do poço e nem sabíamos. E quando estivermos conscientes de estar lá embaixo, na sombra mais escura e assustadora de nós mesmos, caso não tenhamos morrido, quiçá a certeza da falta de sentido de nossas vidas nos pareça subitamente hilária, nos faça rir e chorar ao mesmo tempo. Se não estivermos loucos, quem sabe então tenhamos descoberto algo.
Antonella Zara
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